Os anti-kowalistas
Quando iniciei minha pesquisa sobre os arquivos esquecidos da chamada “Cultura Kowa”, não imaginava a profundidade do abismo que se abriria diante de mim. Em meio a caixas empoeiradas, rolos de fita magnética e recortes de jornais amarelados, encontrei documentos surpreendentes — entre eles, uma série de editoriais e panfletos de cunho abertamente anti-kowalista, publicados entre as décadas de 60 e 80, durante o auge da repressão simbólica aos movimentos artísticos dissidentes.
| Imagem ilustrativa |
Um dos textos mais emblemáticos que emergiu desses arquivos é o editorial abaixo, assinado por Claudio Canario, figura controversa do jornalismo conservador da época. Publicado em 1976, no Diário da Ordem, o texto revela não só a retórica agressiva dos setores reacionários, mas também o medo profundo que o pensamento kowalista — em sua radical liberdade expressiva — provocava.
É um documento que vale por sua potência histórica. E talvez, pela sua atualidade inquietante.
Daniela Oliveira
Segue o texto:
Senhores leitores,
O país acorda, mais uma vez, ameaçado por uma névoa sorridente e disfarçada de arte. A Cultura Kowa, esse movimento que começou com gritos sem sentido diante de edifícios públicos, hoje contamina universidades, ateliês, rádios alternativas e até mesmo escolas.
Dizem ser um “ato de liberdade”. Mas o que é o Kowalismo senão a falência do pensamento? Um retorno ao tribalismo emocional, onde um kowala substitui o cidadão e a performance suprime o argumento.
Durante anos, avisamos: os kowalistas não querem discutir, querem dissolver. Derrubar. Desprogramar. O grito de Kowa (replicado como um mantra) não é apenas ruído: é o som da razão sendo empurrada penhasco abaixo.
Com seus enigmas obscuros e “manifestações afetivas”, transformam a dúvida em culto. Confundem os jovens, sequestram a linguagem, e celebram o absurdo como se fosse despertar. É a estética da derrota.
Nomes como Virginia Higueras, Daniel Tree, Kowamath, e a chamada "Resposta Inflamatória do Organismo" são idolatrados como se fossem visionários. Mas seus textos pregam o abandono da lógica, o afogamento da identidade e o fim da estrutura.
Não se constrói civilização gritando para paredes.
Não se vence a realidade com metáforas molhadas de incenso.
Por isso, afirmo, com a responsabilidade de quem ama esta terra: ou resgatamos os valores da clareza, do trabalho e da verdade — ou assistiremos ao avanço silencioso da pelúcia que engole o mundo.
O Kowala sorri. Mas seus olhos são ocos.
Claudio Canario
Diário da Ordem, 12 de maio de 1976
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